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Phil Mickelson ZEN, por Thomaz Albornoz Neves

Foto: Patrícia Obrakat Salgado

Na conversa com a imprensa em Kiawah, o vencedor do PGA Championship de 2021, Phil Mickelson respondia uma bateria de perguntas sobre a sua longevidade competitiva, afinal acabava de elevar o sarrafo em majors para quase 51 anos (aniversaria em 16 de junho). Em dado momento desconversa com um: – I don’t wanna put me espiritual here… ou algo pelo estilo, referindo-se à como a prática da meditação foi fundamental para ele conseguir manter-se focado. Passou batido. Ninguém ali estava interessado no espírito, se a notícia era a idade.

Porém, quando o assunto é desempenho de um veterano nada se compara a Tom Watson no The Open de 2009, em Turnberry. Watson, com 59 anos, perdeu a Claret Jug para Stewart Cink no playoff após liderar da segunda ronda até o último putt de domingo. Sei que estou na minoria quando penso que algumas derrotas são maiores que muitas vitórias.

Não foi o caso. O feito de Phil Mickelson é incalculável. Trago aquele Aberto britânico porque assistir à resistência de Phil diante de Koepka fez lembrar, por oposição, da fragilidade da linguagem corporal de Tom Watson – os joelhos de borracha e a cadeira travada – enquanto se aproximava do final da competição na Escócia. Phil, ao contrário,
manteve-se firme, com uma expressão imutável, blindada. Não que estivesse sereno, havia muita adrenalina, mas a sua ebulição estava controlada, notava-se, pela respiração.

Em 2009, Watson foi ao campo apoiado em sua experiência. Jogou 5 abaixo no primeiro dia e entregou seu swing ao “flow”, à “onda” de acertos criada pela sucessão de impactos plenos, putts mágicos e na sincronicidade de fatores inexpressáveis como sua sensação dos links, a conexão com o público e o não menos holístico canto do cisne
de um golfista maior. Se não foi suficiente, pois Watson, sabemos, desabou quando o seu “nada a perder” enfrentou a possibilidade de ganhar, importa muito pouco. Sua performance redimensionou o golfe.

Quase sete milhões de pessoas acompanharam a vitória de Phil Mickelson na Carolina do Sul. Sua atuação foi creditada à transformação física e à reconstrução do swing. E é natural que assim seja, afinal, é a parte visível do esporte. Ocorre que a faceta do jogo mais afetada pela envelhecimento é a interior, a parte mental e emocional do golfe. Não há dieta nem academia capazes de criar mecanismos de controle estáveis o suficiente
para assegurar o foco que um major exige. Qual foi então a chave?

A meditação em movimento é uma variante da meditação em repouso e, grosso modo, consiste em executar cada gesto com atenção plena. Levada ao golfe, permite que o golfista execute o swing com tal comprometimento e concentração que o isola de tudo o que não diga respeito à tacada, a começar por aonde irá a bola depois do contato
passando pela importância do tiro naquele buraco, naquela volta, naquele torneio. Em outras palavras, permite que o batedor esteja no instante presente do golpe, unificado ao movimento e separado do que ele representa.

Mas o que o espírito tem a ver com a meditação. A que Phil Mickelson referiu-se quando mencionou a dimensão espiritual do jogo? A resposta é simples. O praticante da meditação em movimento durante uma partida de golfe aumenta gradativamente sua capacidade de atenção. Essa prática atinge um estado de concentração “vazia” onde
a mente – seus cálculos, temores e angústias – distanciam-se, dando lugar à intuição e à entrega. “Entrega”, essa é a palavra.

É através desse processo, posto em prática em cada treinamento, reforçado por técnicas respiratórias e de mindfullness, que estar em contato com a natureza em um campo de golfe pode tornar-se uma profunda experiência existencial. Ou seja, de integração espiritual do indivíduo com o todo e, ao mesmo tempo consigo mesmo. Foi o que
assistimos em The Ocean Course.

Não sei qual dimensão exotérica Phil Mickelson explorou durante seu treinamento meditativo, mas sei que todo golfista com certo tempo de jogo já intuiu que a cancha de golfe é também um campo de forças. No 18 de domingo, enquanto esperava a vez de ir ao green, Mickelson era um decalque no fairway, um corpo em relevo, separado do fundo, em uma redoma própria. E nem mesmo quando o público o engoliu, depois de um approach seguro no meio do green desde o segundo corte, permitiu que a sua emoção o reinserisse na dimensão da multidão.

Thomaz Albornoz Neves (1963)
Autor de “Golfe. Um diário de treino”, ed. Movimento, 2018.

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