Swing natural: A história de uma expressão vazia

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George Knudson

George Knudson

Por haver vários entendimentos e teorias distintas sobre as características que comporiam a suposta “naturalidade” de um swing, a expressão isolada “swing natural”, largamente utilizada, não oferece nenhuma informação sobre as particularidades técnicas do jogador adjetivado, e tampouco nos ajuda a situá-lo em alguma escola de swing ou tradição técnica.

A expressão “natural swing” foi moda nas décadas de 1950 e 1960, teve ainda muita força nos anos 1970 e 1980, e perdura até hoje, ora como sinônimo de swing científico, ora como sinônimo de swing simplificado, e ora como sinônimo de swing personalizado. Essas três interpretações básicas do que seria um swing natural estão associadas aos nomes de Sam Snead, Jack Burke, Moe Norman, George Knudson, Count Yogi e Rick Smith, entre outros.

Portanto, ao não especificar a que “swing natural” está se referindo, o comentarista, jornalista ou instrutor induz seu público a crer que existe um conjunto de técnicas específicas – ou até a ausência de algumas técnicas específicas – que definiriam um único estilo universalmente conhecido e aceito como “swing natural”. Mas tal coisa não existe. Normalmente, o que se depreende dessa afirmação genérica é o equívoco de confundir fluidez de swing (timing e ritmo quase perfeitos) com “naturalidade”. Mas a seguir essa lógica, então 99% dos jogadores do PGA Tour praticam o swing natural.

MOE NORMAN

Moe Norman

Outro equívoco em torno do conceito de swing natural tem a ver com o tônus atlético do jogador. Um jogador com movimentos mais amplos, mais “soltos” (Vijay Singh, por exemplo), estaria praticando um swing natural; e aquele jogador mais técnico, mais “robótico” (digamos, Aaron Bradley), estaria praticando um swing menos ou nada natural. Mais uma vez, esse entendimento não tem nada ver com as definições conhecidas e estudadas de swing natural. Para demonstrar isso, peguemos como exemplo as ideias básicas de swing natural defendidas por três dos grandes jogadores anteriormente citados: Snead, Knudson e Norman.

Em 1953, Sam Snead publicou o livro Natural Golf – How to Play Winning Golf Your Natural Way. Como o título evidencia, Snead pregava um swing que se adaptasse às características de cada um, não importando a variação da técnica. A chave, ensinava Snead, está em ficar livre da tensão, em manter o corpo relaxado e com foco, para os movimentos encontrarem a sequência certa (timing), atingindo o lendária suavidade (ritmo) que eternizou seu swing.

Essa concepção de o jogador ficar à vontade com seu próprio swing, sentindo que está devidamente adaptado às suas condições físicas, é a mesma que permeia as ideias de outros jogadores que também usaram a expressão swing natural, a exemplo de Jack Burke, autor de The Natural Way to Better Golf, lançado em 1954.

Já o swing natural de Moe Norman não tem nada a ver com o swing natural de Snead. Norman, conhecido por ter sido um dos batedores mais retos e constantes da história do golfe, desenvolveu uma técnica – depois formulada e teorizada por Jack Kuykendall em 1991 – que inclui grip na palma da mão, vara alinhada com o antebraço, stance muito aberto, backswing curto, subida e descida do taco exatamente no mesmo plano, e tudo culminando num finish igualmente curto e um tanto abrupto.

Sam Snead

Sam Snead

Bem, é preciso um bocado de esforço para achar “natural” tudo isso; mas é assim que seu estilo foi chamado, e assim se fez a merecida fama de Norman, baseada em sua busca da extrema simplicidade.

Por sua vez, o entendimento que George Knudson tinha de swing natural também diferia totalmente dos entendimentos de Norman e Snead. Knudson publicou em 1988, um ano antes de sua morte, o livro The Natural Golf Swing, no qual afirma que “natural” é o swing que consegue aplicar as leis da física. Knudson ensinava grip, postura e posição da bola para levar o aluno a suingar de modo que aproveitasse a força centrífuga gerada pelo taco; e, ao conseguir isso, o aluno estaria suingando “naturalmente”.

Ao ver o swing de Knudson, percebemos a grande semelhança com o swing de Ben Hogan, um jogador conhecido, sobretudo, pelo seu preciosismo técnico. Aliás, Knudson citava Hogan como a influência fundamental para a consolidação de seu estilo. O “swing natural” de Knudson, que Jack Nicklaus dizia ser um dos mais belos e eficientes da história (“Um swing de um milhão de dólares”), não tinha a ver com aprender algumas técnicas, pegar no taco e bater apenas confiando nas sensações; tudo passava pela compreensão científica do swing. Seus quatro pontos principais: grip, equilíbrio, movimento rotacional e aplicação da força centrífuga.

Agora, vamos repassar o que aprendemos até aqui: há três teorias distintas e básicas que, ao longo da história, se intitularam “swing natural”. A primeira é baseada na ciência e no aproveitamento das leis do movimento (Knudson); a segunda em uma inovadora simplicidade técnica (Norman); e a terceira no aproveitamento das características particulares de cada jogador (Snead).

Basicamente, em todos os outros métodos existentes que foram nomeados de swing natural, encontramos a repetição dessas três teorias, as quais ora se mesclam e ora se conflitam.  Por fim, ressaltemos que não estamos falando apenas de três teorias diferentes, mas de três swings que, apesar de receberem a mesma nomenclatura, são absolutamente distintos na prática.

Com essas três distinções em mente, voltemos ao enunciado do primeiro parágrafo. Para efeito de análise de swing, a única das três teorias que permite uma identificação clara é a de Moe Norman, pois qualquer um que suingar como ele ensinava, será facilmente reconhecido como um discípulo tardio desse adorável Rain Man do golfe. Já as outras duas teorias permitem que se diga qualquer coisa sobre qualquer tipo de swing, pois são baseadas muito mais em sensações e intenções do que em movimentos específicos. Quer dizer, são duas teorias carentes de elementos técnicos visualmente identificáveis e catalogáveis.

Por exemplo, é impossível descobrir pela análise visual se um jogador está aplicando a totalidade da força centrífuga proposta por Knudson – e, de resto, esse aproveitamento total dessa força pode ser alcançado por diversos tipos de swing. E se o swing natural de Sam Snead é baseado em movimentos sem tensão e no aproveitamento das características individuais, então podemos incluir, novamente, quase a totalidade dos jogadores do PGA Tour nessa categoria, não importando se os swings são mais técnicos ou mais “soltos”.

O critério de swing natural é importante como elemento histórico e como indicador de determinada eficiência e certa preferência pessoal por swings mais fluídos e com menos torque, mas não é uma ferramenta teórica de análise técnica de swing; é muito mais como uma rede um tanto embaralhada que abarca tudo, desde um swing da velha escola, como o de Vijay Singh, até um swing da nova, como o de Aaron Bradley. Quem joga essa rede se afasta da arte de seu ofício.

 

 

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